Por Dhiule Volz
Já começo dizendo que talvez essa carta nunca chegue às pessoas que deveriam lê-la. Ainda assim, escrevo porque acredito que o silêncio também sustenta muitos dos problemas que vivemos. Sou apenas uma em meio a mil e não tenho nada mais a oferecer além do que já faço diariamente através do meu trabalho. Mas essa carta serve para que eu possa desabafar e para que aquilo que percebo possa, talvez, ser compartilhado e compreendido por alguém.
Adianto também que não é do meu feitio criar polêmicas, mas ao mesmo tempo, a única opinião sobre meu caráter que me importa verdadeiramente é a dos meus alunos e de suas famílias. Pessoas que confiam no meu trabalho, no meu papel como artista-educadora e que sustentam minha profissão. E uma grande parte da minha necessidade de falar vem justamente dessa confiança, porque enquanto educadora preciso ser exemplo e enquanto artista, preciso ser voz ativa na sociedade da qual faço parte.
Não escrevo para culpar alguém e muito menos tornar a pauta algo partidário, até porque não tenho correlações com nenhum partido político. Mas acredito que as conversas precisam ser politizadas, levando em consideração a história do nosso país, nossa sociedade e as invisibilidades que estruturam nossa rotina. Por isso vejo todos nós (cidadãos e representantes) como vítimas de situações que historicamente se repetem. Porém, apenas um lado possui o poder de mudar isso, ou ao menos tentar.
No começo deste ano existiu um processo seletivo com uma vaga para instrutor de dança, teatro e música na nossa cidade. O que, num primeiro momento, parece um passo importante, porque são áreas artísticas de extrema relevância para o desenvolvimento humano. Não é preciso pesquisar muito para encontrar evidências científicas de que uma criança que cresce em contato com a arte desenvolve inúmeros benefícios físicos, mentais e emocionais, assim como jovens e adultos que passam a ter essa oportunidade. No entanto, sempre que um novo passo é dado, também é preciso observar como ele pode ser melhorado. E é aí que entra nosso compromisso social enquanto profissionais da área, famílias e pessoas envolvidas nessas decisões.
Começo questionando o entendimento das áreas artísticas, porque aqui temos três linguagens diferentes: dança é uma linguagem, teatro é outra e música é outra. Trazendo para um exemplo mais prático, é como matemática, química e física: existem aproximações, mas são áreas que exigem anos de estudo, prática e experiência para que alguém tenha domínio sobre elas. Ao mesmo tempo, também sei que é comum na educação pública do país que professores ministrem disciplinas fora de sua formação. E aqui temos outro ponto importante para refletir: até quando isso continuará sendo normalizado?
Como profissional do teatro, fui em busca de entender melhor a vaga, já que minha área foi citada no cargo. Porém, logo no edital, me deparei com duas informações curiosas: a exigência para ocupar a vaga, além do ensino médio completo, era possuir curso de instrutor de dança (mas e a parte do teatro e da música?). Além disso, as atividades previstas envolviam instruir alunos da rede municipal para festividades culturais como CIENA, FESTQUILOMBOLA e FESTCAP.
São festivais que exigem não apenas conhecimento técnico em dança, mas também compreensão das tradições culturais que carregam. Em resumo, espera-se que um único profissional tenha conhecimento técnico de dança (uma área extremamente ampla e cheia de desdobramentos culturais) além de domínio sobre tradições alemãs e pomeranas, tradições gaúchas, tradições quilombolas, sem esquecer do teatro e música que enfeitam o nome do cargo. Será que estamos realmente falando de festivais que valorizam nossa diversidade cultural ou estamos apenas buscando fotos bonitas e esteticamente agradáveis ao final desses eventos?
Como citei anteriormente, não é do meu feitio criar polêmicas ou transformar situações em barracos virtuais em busca de curtidas. Por isso, me inscrevi no processo seletivo para compreender melhor o assunto e ter embasamento antes de emitir qualquer opinião. Fiz a prova. As perguntas eram bastante abrangentes entre as áreas artísticas, algo que qualquer profissional de qualquer uma das três linguagens conseguiria responder e que faço questão de citar como algo extremamente positivo. Porém, não havia nenhuma pergunta relacionada às culturas tradicionais envolvidas nos festivais, sendo que essa é a principal atividade que o profissional vai exercer, na prática.
A maior prova disso é que fui classificada em segundo lugar mesmo tendo absoluto zero conhecimento técnico e profissional em danças relacionadas aos eventos culturais do município. E isso me faz genuinamente perguntar: qual é o nível de qualidade que estamos oferecendo para nossa cultura e para nossa educação com tudo isso?
E quando penso em qualidade cultural, não penso apenas na formação dos profissionais para as vagas ofertadas, mas também na forma como a arte é tratada dentro da nossa cidade de forma geral. Hoje, o principal espaço público cultural que temos acesso é o Cine Teatro Municipal. Um espaço que estava abandonado e enfrenta problemas técnico-estruturais, também não conta com equipamentos técnicos funcionais, mesmo após investimentos anunciados. Ainda assim, é constantemente utilizado para diversos fins, como reuniões e, recentemente, até um longo período de consultas médicas. E cito isso sem qualquer desrespeito à saúde pública, porque compreendo perfeitamente sua importância e necessidade, especialmente para quem não possui condições de pagar por um atendimento de qualidade. Mas o fato de um espaço pensado para arte, encontros culturais, espetáculos, oficinas e formação artística precisar dividir sua função dessa maneira revela muito sobre o lugar que a cultura ocupa dentro das prioridades do município.
Revela o quanto a arte ainda é vista como algo secundário, adaptável, improvisável. Algo que pode sempre esperar o dia que sobra, o horário que sobra. E talvez a pergunta mais importante seja: por que a cultura quase sempre precisa sobreviver nas sobras?
Também não é preciso pesquisar muito para compreender que as linguagens artísticas são ferramentas extremamente potentes para o desenvolvimento do pensamento crítico, da sensibilidade e do autoconhecimento humano. Uma sociedade que pensa, sente e questiona exige mais de seus representantes. E talvez seja justamente por isso que arte, cultura e educação ainda sejam tão frequentemente tratadas como secundárias.
Talvez muitas pessoas leiam essa carta e pensem que estou exagerando. Talvez muitas pessoas leiam essa carta e façam exatamente o que já vivencio na vida real todos os dias: pensem que sou “jovem demais” para falar sobre essas questões ou que estou apenas tentando causar desconforto desnecessário. E talvez justamente por eu ser uma mulher jovem seja mais fácil e mais cômodo descredibilizar minhas falas, diminuir minhas inquietações ou tratar minhas preocupações como drama, rebeldia ou sensibilidade excessiva. Como eu disse, é o que vivencio na vida real.
Mas ainda assim eu preciso e escolho falar. Porque o silêncio também é uma escolha de responsabilidade e eu não quero escolher me calar diante de situações que impactam diretamente o futuro cultural do lugar onde nasci e vivo.
Não escrevo essa carta porque acredito ter todas as respostas, muito menos acreditar que tenho razão sobre tudo… até porque, só posso opinar sobre o que tenho conhecimento e definitivamente não sei como acontecem as decisões de uma cidade inteira. Escrevo porque acredito que mudanças só começam quando alguém decide apontar aquilo que está desalinhado, mesmo sabendo que provavelmente será ignorado. E sinceramente, mesmo sendo quase uma ilusão, espero que, em algum momento, as coisas mudem.
Que a cultura deixe de ser tratada como enfeite. Que profissionais sejam valorizados dentro de suas áreas de formação… que meus colegas artistas sejam vistos em suas funções e que eu possa experienciar e aprender sobre as culturas que não tenho conhecimento algum que fazem parte de Canguçu.
Que nossos espaços culturais sejam preservados em sua função original e que as próximas gerações possam crescer entendendo que arte não é luxo e jamais será. Não é enfeite e não é favor. Arte é direito tanto quanto saúde e estrutura. Seja para quem é rico, seja para quem é pobre. É memória, identidade, e pertencimento.
Pela atenção, agradeço.
Assinado: uma artista.

















































