NA TERRA DA ONÇA TAMBÉM HABITAM PANTERAS NEGRAS
“...essa negrinha é puta, puta [que é um raio], filha do Zeca...” (“Vereador” Francisco Vilela)
CANGUÇU! Eu nasci em Canguçu! Eu saí de Canguçu, mas jamais Canguçu saiu de mim! Carrego minha carteira de identidade, onde está escrito que minha naturalidade é: Canguçu! Em meu passaporte está escrito que sou natural da terra da onça e tenho orgulho em ser filho da Princesa dos Tapes!
Tenho recebido de vários amigos e amigas um vídeo onde um microfone, efetuando o papel para que foi criado, amplifica a fala racista de um Vereador da cidade em que nasci! O substantivo feminino utilizado pelo não tão nobre “edil” para desqualificar a Servidora Pública me chamou a atenção e certamente merece sim ser analisado pelos pares da Casa de Leis da cidade.
Mas, o que mais me chamou atenção e me fez refletir foi o modo pejorativo que o não tão nobre Edil se referiu a uma Servidora Pública, uma mulher Negra, a chamando de “negrinha”! Não conheço o Vereador e estarrecido fui assistir a Sessão Legislativa que aceitou a abertura de processo por quebra de coro do Parlamentar e ao escutar o Edil se pronunciar fiquei mais estarrecido ainda. Pois do alto de sua empáfia se achou no direito de ainda ter direito!
Então resolvi, primeiramente, na condição de filho de Canguçu, professor, escritor, pós-graduado em Políticas Públicas em Educação em Direitos Humanos, Diversidade e Questões Étnicos-Raciais me solidarizar com a Mulher Negra, conterrânea, irmã na cor e na dor, Eliane Pereira Rush!
Eliane, saiba você que a filosofa estadunidense Angela Davis é autora de uma frase que ecoa no mundo inteiro, e agora chega a nossa Canguçu. Disse ela: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”; eu acrescento de minha lavra, que também é verdadeiro dizer que quando uma mulher negra é agredida, toda sociedade é agredida com ela. Mesmo distante, eu faço parte desta sociedade para sempre. Eliane, receba, por favor, minha solidariedade, meu apoio e minha amizade!
Em segundo lugar, vou me dirigir ao Nobre Senhor Vereador Francisco Romeu da Silva Vilela, vulgo Senhor “Xico Vilela”, não no sentido de lhe jogar pedra, mas em contribuir para que o fato acontecido lhe sirva como aprendizado e quem sabe ao aprender o senhor se torne uma pessoa melhor, menos preconceituosa, abandone os filmes pornôs e venha a servir a sociedade de maneira digna, de preferencia fora da Câmara de Vereadores.
Senhor Vereador, Xico Vilela, peço licença e liberdade para lhe contar uma pequena história que está inserida dentro de outras histórias maiores e gloriosas que pertencem a minha família e a história da população negra de Canguçu.
Nessa cidade em que o senhor foi eleito para representar o povo, nossa bela Canguçu, antigamente, nos tempos em que os negros não podiam frequentar certos lugares, lugares próprios para pessoas brancas; nos tempos em que os negros conheciam seu lugar e nele permaneciam, baixavam a cabeça, olhavam para o chão e com a voz baixa concordavam com tudo; nos tempos em que as meninas e mulheres negras eram chamadas por meninos e homens brancos de “neguinhas”, uma menina negra passou o canivete no pênis de um homem branco, tipo o senhor, que a chamou de “neguinha”, mostrou o pênis e encostou nela.
Essa menina cresceu, se tornou uma mulher e principalmente o fato mais importante: era minha avó paterna! Dona Fortunata Dias é seu nome. Os amigos a chamavam de Dona Nádica, eu e meus irmãos a chamávamos de “Vó Diquinha”. Ela era muito conhecida em nossa Canguçu e foi minha primeira professora do que chamamos hoje “Questões Étnico-raciais”. Ela me ensinou e sempre a escutava a ensinar as meninas negras da família, que se algum “branco” lhes chama-se de “neguinha” que elas dissessem nome e endereço do dito cujo que ela iria até o local e faria o sujeito se arrepender de ter nascido. E ela cumpria à risca o que falava! Vereador, se minha Avó Nádica viva fosse, ela teria invadido a Casa de Leis e hoje o senhor estaria em maus lençóis!
Uma segunda história e agora atual, é de uma amiga a quem muito prezo e respeito, mulher negra também, que costuma dizer o seguinte: “Se me chamar de “neguinha”, vai depender do contexto e da maneira e eu vou decidir, se me derreto toda ou se te processo”. No seu caso meu caro Xico, cabe processo sim, pois você ainda se utilizou duplamente do substantivo feminino “puta”. E racismo é crime, “xico”! Há se Dona Nádica viva fosse!
Se me permite, “xico”, veja que ao longo desta minha fala tens perdido o prestígio de minha parte. Comecei te chamando de “Nobre” e já estou te chamando somente de Xico. Se me permite vou te falar de um grande homem negro, que ocupou essa cadeira que infelizmente você ocupa, espero que não por muito mais tempo. Este homem Negro se chamava José Manoel de Almeida, meu avô! Meu avô Zé Almeida, tal qual era chamado foi o primeiro Vereador Negro de nossa cidade. Era um trabalhador conhecido e respeitado em todo o interior de Canguçu, era um poeta e respeitava as mulheres, os homens e principalmente seus pares nessa Casa de Leis. Existe quase nada de sua biografia nos anais dessa Câmara de Vereadores, isso de uma certa maneira é triste, pois um Legislativo que não possui sua própria memória e dos Edis que por ela passam deixa muito a desejar. Em nome do meu avô que ocupou essa cadeira, ouso dizer que “tu” desonrou não somente essa Casa de Leis, onde ele, um poeta, tratava todas as mulheres com reverencia e respeito, mas manchou com mídia negativa nossa cidade.
Em tempo, “xico”, meu pai, Walvon Dias, foi um grande político em nossa cidade, isso nos anos de chumbo, tempos em que tudo podia, inclusive chamar as pessoas de melanina acentuada de “neguinhos e neguinhas”, um dia, dentro de nossa casa agrediu um político “graúdo” da época, pelo fato de usar o mesmo termo que ‘tu’ usou, depois, virou para minha pessoa e disse: “...o que eles pensam e conversam em privado, um dia verbalizam! Cabe a você puxar a descarga e não permitir que volte a acontecer!”.
Obrigado por sua atenção, desculpa se me exaltei um pouco, mas estamos no ano de 2023, século XXI, era em que a tecnologia domina o mundo e na minha nada modesta opinião não existe mais lugar para esse tipo de fala, tal qual a que ‘tu’ proferiu e ao não mais aceitarmos esse tipo de fala, não aceitamos mais calados as pessoas que as estão proferindo, seja em atos, omissões, pensamentos ou em conversas particulares. Espero que seus pares façam justiça à servidora caçando seu mandato e mostrando que a sociedade canguçuense não aprova esse tipo de conduta.
Me despeço, pedindo desculpas a sociedade a que pertenço, a sociedade canguçuense, a qual tenho muitos amigos/irmãos, se minha fala em algum momento os deixou constrangido, os que me conhecem sabem que sempre andei e fui criado na companhia dos maiores e melhores homens e mulheres, negros e negras que essa cidade já viu e que muito fizeram para essa cidade ser o que é nos dias de hoje, verdadeiros Panteras Negras! Se muitos hoje estão sem dentes para morder e outros já morreram, ainda existem fibra e valor na maioria para lutar em defesa do correto, mesmo que estejam habitando em terras distante, pois Canguçu jamais sai de dentro dos seus filhos, estejam onde estiverem, carregam a terra da onça dentro de si.
Na terra da onça habitam Panteras Negras e elas devem ser respeitadas!
Waldson de Almeida Dias (Tcheco) - 15/06/2023 (A pedido).
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