O jornalismo tem uma lógica complexa. É preciso buscar a cada dia a objetividade, a imparcialidade e a isenção. Até os colunistas, profissionais da opinião, que, como tal, são pagos para escolher, necessitam sustentar suas opções. Um olhar, no entanto, sempre recorta a realidade. A imparcialidade absoluta (redundância ou impossibilidade?) é um ideal, um horizonte norteador. Como o horizonte, afasta-se quando nos aproximamos. Em alguns momentos, porém, o cidadão deve prevalecer em relação ao jornalista. É a hora de tomar partido. O Correio do Povo tomou partido em 1930. A favor da revolução. Contra a fraude eleitoral. O cavalo era gaúcho e estava passando encilhado. Tinha de montar.
Em 1961, os jornalistas gaúchos tomaram partido. Ficaram com a Legalidade. Os radialistas apresentaram-se como voluntários e passaram dias e noites no porão do Palácio Piratini usando a melhor arma de que dispunham em defesa da posse de João Goulart: a voz. Muito receberam revólveres e prepararam-se para os combates. Hoje, a partir das 18h30min, no prédio histórico do Correio do Povo e da Rádio Guaíba (Caldas Jr., 219), vamos fazer o lançamento do meu livro "Vozes da Legalidade, Política e Imaginário na Era do Rádio". Mesmo que pessoas mesquinhas possam não acreditar, não quero ser o foco do encontro. Se falo disso, é por me render à coragem de dois fortes, Leonel Brizola e João Goulart. Mas também para destacar o papel desempenhado por jornalistas e radialistas no episódio mais popular da história moderna do Rio Grande do Sul, ocorrido há 50 anos, a resistência a um golpe.
Muitos dos heróis da caneta, do microfone e dos mistérios da técnica, fundamentais na Legalidade, que teve a Rádio Guaíba como cabeça de rede, já morreram, entre os quais Hamilton Chaves, Carlos Contursi, Homero Simon e Naldo Freitas. Mas estão aí bem vivos para nossa alegria homens como Carlos Bastos; Flávio Tavares; Lemyr Martins; JK; Lucídio Castelo Branco, o Castelinho; Lauro Hagemann e o nosso Celso Costa, que ajudou Homero Simon a garantir as condições técnicas para as transmissões do Piratini. Há uma galeria de homens e mulheres, com histórias, anedotas e gestos de entrega naqueles 12 dias de civismo, uma primavera no final do inverno. Todos eles tomaram partido, escolheram lado, o lado certo, o lado da Constituição, do justo, da verdade e do senso histórico.
Queríamos ter posto na capa do livro uma foto de Brizola com uma metralhadora INA a tiracolo, símbolo perfeito do que aconteceu. Não encontramos o nome do fotógrafo. Decidimos evitar disputas judiciais. Brizola merecia essa homenagem. Quem sabe o nome do fotógrafo aparece e usamos a imagem numa próxima edição. A importância dos homens na história não se mede pela soma dos feitos menos o número de erros, mas pela sensibilidade para dar o grande salto quando a história entra num processo de aceleração. Foi isso que Brizola, os jornalistas, os radialistas e a maioria dos gaúchos sentiram em 1961. Juntos, fizeram História. Saíram da rotina e criaram acontecimentos. Há o que se comemorar.
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

Um comentário:
Quero o livro de presente...
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