"Agora eu tenho uma irmã de rim": pacientes recebem órgãos de uma mesma pessoa em transplante inédito no sul do Estado.
A rotina do agricultor Tiago Bohlke Wendler era medida em quilômetros e cansaço. Morador da zona rural, na divisa entre Canguçu e São Lourenço do Sul, ele percorria cerca de 700 quilômetros por semana para realizar o tratamento de hemodiálise no Hospital Universitário São Francisco de Paula (Husfp), em Pelotas. A rotina que já durava um ano e oito meses foi interrompida de forma abrupta e histórica na madrugada entre sábado e domingo, 24 e 25 de maio.
Em menos de seis horas, o Husfp realizou, pela primeira vez em sua história, dois transplantes renais consecutivos. A operação complexa e inédita para a instituição utilizou os órgãos de um mesmo doador falecido para salvar a vida de Tiago, de 37 anos, e de uma mulher de 57 anos, moradora de Pelotas, que aguardava na fila há quase quatro anos.
Para Tiago, a sétima chamada da lista de espera foi a definitiva. Após seis tentativas que não se concretizaram por detalhes de compatibilidade, ele já nem criava expectativas quando o telefone tocou.
— Dessa vez eu nem levei fé, porque antes não dava certo. Mas foi tudo tão rápido que eu quis contar até 30 na anestesia e não cheguei ao três — recorda o agricultor.
A velocidade do procedimento cirúrgico deu lugar a um sentimento profundo de gratidão e conexão humana. Ao descobrir que a outra paciente internada no bloco cirúrgico havia recebido o segundo rim do mesmo doador, Tiago deu uma nova definição para o vínculo criado naquela madrugada.
— Essa pessoa que doou para nós dois salvou duas vidas assim, do nada. Agora eu tenho uma irmã, não de coração, mas de rim. Penso que essa pessoa não morreu, ela vive com a gente. Ela chegou à vida de uma forma inexplicável — afirma.
A mudança imediata na qualidade de vida representa, para o produtor de soja, a reconquista do próprio tempo.
— Olha o peso que tira da cabeça não precisar mais andar tanto na estrada. A diálise não é brincadeira, não é só ir ali e filtrar o sangue. É um sofrimento — desabafa.
Sabendo do valor do recomeço, Tiago planeja se cuidar. Pelas regras médicas, terá de terceirizar o manejo com defensivos agrícolas na lavoura para proteger o novo órgão.
— Tu tem que ver que está com um órgão emprestado de alguém de bom senso. Então, pelo amor de Deus, vai cuidar. Eu quero viver — conta.
Uma força-tarefa contra o relógio
A operação que garantiu o recomeço dos dois pacientes exigiu uma mobilização humana e logística sem precedentes no hospital pelotense. Mais de dez profissionais — entre cirurgiões vasculares, urologistas, anestesistas, enfermeiros e residentes — dividiram-se em regime de plantão e prontidão para realizar as cirurgias em sequência.
O médico nefrologista Gustavo Uliano, coordenador da equipe de transplantes do Husfp, explica que o sucesso do procedimento duplo dependeu diretamente da agilidade na captação e no transporte dos órgãos, uma vez que o tempo fora do corpo determina o sucesso da recuperação do rim.
— O transplante renal por si só é um procedimento complexo. Ocorrendo dois ao mesmo tempo, o cuidado acaba sendo dobrado. Mostra o nosso preparo e responsabilidade — destaca Uliano.
Os primeiros resultados da força-tarefa já são visíveis nos leitos do hospital. Neste momento, ambos os pacientes apresentam excelente evolução clínica, com volume de urina superior a dois litros por dia e sem a necessidade de retornar para as máquinas de diálise no pós-operatório imediato.
O feito inédito reposiciona o Hospital Universitário São Francisco de Paula como uma referência consolidada em alta complexidade. Credenciado para transplantes renais desde 2011, o hospital realizou seu primeiro procedimento em 2012 e soma pouco mais de 40 cirurgias do tipo ao longo de sua trajetória. A instituição é o único centro de saúde ativo para transplantes de rim em toda a Metade Sul do Rio Grande do Sul.
Segundo o coordenador, Descentralizar o atendimento e fortalecer os centros regionais é vital para poupar os pacientes de viagens exaustivas até Porto Alegre. No entanto, o factor humano continua sendo o principal combustível do sistema.
— Ver a felicidade, a esperança desse paciente com a vida que vem pela frente, é muito gratificante. O transplante não é a cura, mas dá uma qualidade de vida extremamente diferente — pontua Uliano.
Ainda no leito de recuperação, já de pé, Tiago Wendler faz um apelo para que mais famílias conversem sobre o tema e superem o receio da doação.
— Tanta gente falece por dia e tanta gente entra na máquina. O pessoal tem receio, tem medo, mas eu fui salvo por um. É fazer o bem sem saber a quem. Sem isso, eu não estaria aqui — conclui.


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