NOVANET

Vida Plena

Gordices da KÁ

09 fevereiro 2023

Mídia Regional destaca caso de intolerância religiosa em Canguçu

Os jornais "Tradição Regional" e "Diário Popular", de Pelotas e com circulação regional e estadual, realizaram reportagens sobre a situação de uma mãe que relata que sua filha estaria tendo problemas com a rede municipal de Ensino em Canguçu, entre estes problemas estaria sofrendo intolerância religiosa. Além de outras situações inesperadas. 
Confira as reportagens:

Jornal TRADIÇÃO REGIONAL
Por Stéfane Costa


A ialorixá Natália Paulsen, moradora de Canguçu, através de uma live na sua conta na rede social Facebook, relatou um caso de intolerância religiosa sofrida por sua filha, atualmente com oito anos, na rede municipal de educação do município.

Segundo Natália, a criança estava, inicialmente, no maternal de uma escola particular quando tinha quase três anos, até que nas férias foi transferida para uma escola do município.

A mãe de santo relata que, no início, várias situações inesperadas conturbaram os primeiros passos da pequena na instituição de ensino, fatos que até então não havia relacionado com intolerância religiosa. Com certa frequência, Natália era informada de que a filha possuía algum problema ou condição especial que deveria ser examinada. “A minha filha tinha um problema. Minha filha não era normal. Foi me dito isso pois ela contava até 30 enquanto a professora estava ensinando a contar até cinco”, diz.

Os relatos escolares insistindo para que Natália procurasse ajuda especializada continuaram, de forma insistente. “Foi falado pela professora que a minha filha poderia ter autismo. O que não pode,  gente? Professor não é médico, professor não dá diagnóstico. É crime”, enfatiza.

A situação se tornou ainda pior quando a ialorixá foi até a escola e, segundo ela, encontrou a menina amarrada em uma cadeira alta especial para alimentação de bebês. Ao questionar a instituição sobre o uso do equipamento para a criança que já possuía três anos recebeu a resposta de que era para a segurança dela. “Ela começou a aparecer com marcas de pegada nos braços, machucados. Ela chegava na frente da creche e se jogava no chão falando de bruxa má e eu, sinceramente, não entendi”, detalha.

Tempos depois, Natália descreve uma nova situação de exclusão sofrida pela filha, desta vez envolvendo a invernada da escola para a qual havia transferido a menina após os problemas na instituição anterior. A participação na atividade era paga, o que a mãe revela ter feito mensalmente até que, no início das apresentações, a menina não pôde estar presente pois era a data de seu aniversário, fato que segundo a mulher foi comunicado com antecedência, logo após ela foi excluída do grupo. “Posterior a isso eu fui atrás, como assim vão me excluir? Recebi uma mensagem, me pedindo mil desculpas mas que a * não estava pronta. E como iria conversar comigo ela não dançava perfeito pra apresentar. A * retornou para a invernada, porque eu não gostei do assunto eu tava pagando, e eu ia espiar os ensaios e ela tava sentada. Deixavam a * sentada enquanto os outros ensaiavam pra dançar perfeitos, sem a presença da minha filha”, relata. Ao fim do episódio, a menina se sentiu desanimada e não quis retornar para a apresentação, que já havia sido divulgada para a família.

Com a chegada da pandemia e o período de adaptação às novas regras escolares, Natália foi mais uma vez orientada a procurar ajuda pois, conforme dito, deveria ter algo errado com a sua filha. A instituição solicitou o encaminhamento para a sala de AEE, Aula de Educação

Especial, para fazer testes e avaliar a necessidade de apoio médico. “Foi um dia que eu chorei bastante na escola, aceitei, fizemos uma ata, conversei com elas e disse ‘se caso ela tiver alguma coisa eu quero que ela tenha estrutura do município, já que vocês estão tão preocupados com a saúde dela, eu quero que ela tenha uma estrutura, vamos fazer todos os teste’”, conta.

A avaliação feita após encaminhamento mostrou que a menina não possuía qualquer alteração ou anormalidade cognitiva, mas o problema não teve fim. “Me chamaram na escola e disseram que a minha filha não tinha nada, e aí disseram que ela tinha tudo. Quando eu vi o encaminhamento em cima da mesa da enfermeira que foi fazer a anamnese, tinha tudo que é tipo de sintoma”, revela. Após uma série de novas consultas, os testes psicológicos apontaram que a criança possui uma inteligência acima da média. “A * foi negligenciada o ano inteiro. Enquanto uns não aprendiam a ler e escrever ela tinha que fazer as atividades para aprender a ler e escrever, e reclamam que ela fazia a atividade muito rápido”, fala

A gota d’água para denunciar formalmente a situação chegou junto com a compreensão do caso de intolerância religiosa e o convite para participar do Fest Quilombola, um evento da instituição. Na ocasião, a mãe diz ter sido chamada para organizar e incentivar a participação no evento até que uma súbita mudança lhe foi comunicada. “Pra minha surpresa, no outro dia quando eu fui buscar minha filha na escola, me chamaram que teria que ter uma mudança de roteiro porque, pasmem, uma professora da escola poderia acabar me ofendendo dentro de sala de aula eu disse ‘me ofendendo por quê?’ ‘porque ela não gosta da tua religião’”, descreve.

A discriminação religiosa teria prosseguido ainda mais forte com comentários feitos diretamente para a pequena mesmo após uma nova transferência na rede municipal. “Ela chegou em casa e se ajoelhou em cima de uma cadeira e muito triste começou a rezar. Eu disse ‘mas o que tá acontecendo…’. Nós não somos cristãos, eu respeito Jesus Cristo, acredito que tenha sido um grande médium, tenho muita fé em Deus, Olorum pra nós, mas nós não somos cristãos aqui em casa. Nem eu nem meu marido nem meus filhos. E ela chegou em casa muito triste, chorando e rezando em cima de uma cadeira e eu (disse) ‘por quê, minha filha?’ Porque disseram que ela tinha um mal muito grande dentro dela, ou ódio que ela precisava rezar para tirar o mal de dentro dela, isso logo depois que ela veio da escola”, conta.

Ao fim do vídeo, a mãe fala sobre o medo que sente pela família e o cansaço diante de tantos problemas acerca do preconceito com a religião que segue. “Minha filha sofre intolerância religiosa, meu filho é pardo, sabe. Ele vai sofrer além da intolerância religiosa, ele vai sofrer racismo e eu não sei até quando o meu psicológico vai aguentar”, desabafa.

Questionada pela reportagem do JTR acerca de possíveis mudanças no tratamento do caso após a divulgação na rede social Natália, que até então não havia conseguido o retorno do município, conta que foi procurada pouco depois de anunciar a live. “Quando eu falei que iria entrar via Ministério Público fizeram uma junta pedagógica pra me atender mas não me deram retorno nenhum. E no dia da live, quando eu divulguei a live, elas me ligaram porque a secretária tinha tempo pra conversar comigo”, comenta.

Geovane Klipel, delegado da Polícia Civil de Canguçu, informou que o caso encontra-se em andamento de forma sigilosa. Testemunhas ainda devem ser ouvidas e o inquérito deve ser concluído dentro de 30 dias.

O que diz a Prefeitura

Em nota via Assessoria de Comunicação, a Prefeitura ressaltou que a condução da pasta é ” é sempre na construção de uma cultura de respeito e convívio harmônico entre todas as cores, crenças e religiões, especialmente porque Canguçu se caracteriza por uma grande diversidade étnica na sua formação”.

Apontou ainda que os problemas que acontecem nas escolas são “averiguados e esclarecidos de forma a buscarmos o entendimento entre os envolvidos. Quanto aos fatos apontados pela denunciante, enfatizamos que não há qualquer diferenciação de tratamento da aluna em relação as crenças religiosas da família”.

Confira a nota completa

“A condução da Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Cultura é sempre na construção de uma cultura de respeito e convívio harmônico entre todas as cores, crenças e religiões, especialmente porque Canguçu se caracteriza por uma grande diversidade étnica na sua formação.Conforme preconizado tanto na BNCC quanto na RCG, trabalhamos de uma forma ampla todas as religiões em nossas escolas, promovendo reflexões sobre os fundamentos, costumes e valores existentes na sociedade, com atividades que estimulem o diálogo e respeito entre todos.

Em relação a problemas que acontecem em nossas escolas, tanto com relação a questão religiosas como demais assuntos, os mesmos são averiguados e esclarecidos de forma a buscarmos o entendimento entre os envolvidos. Quanto aos fatos apontados pela denunciante, enfatizamos que não há qualquer diferenciação de tratamento da aluna em relação as crenças religiosas da família”.

JORNAL DIÁRIO POPULAR
Por Lucas Kurz
lucas.kurz@diariopopular.com.br

Uma mãe de Canguçu acusa a escola (*) em que sua filha estuda de intolerância religiosa. Natália Paulsen, Yalorixá, aponta que, por conta de sua ligação com a umbanda, a filha recebe tratamento desrespeitoso por parte de funcionários e estudantes da instituição municipal de ensino. Além disso, diz que ela própria foi vítima de desrespeito quando convidada para participar de um evento sobre a cultura africana - mesmo sendo branca - e proibida de "falar sobre macumba". A Prefeitura negou haver tratamento diferenciado por questões religiosas na rede pública da cidade.

Ela diz que, por ser de uma religião praticada por uma minoria na cidade, as perseguições tornaram-se constantes. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, apenas 0,11% da população é umbandista em Canguçu - apenas 63 pessoas se autodeclararam seguidores da religião. Por isso, Natália diz que isso afeta até na rotina de retirada do lixo de casa. "Mas teve um momento que começou pegar minha filha", revela. E aí os problemas tornaram-se piores.

Ela conta que, ao longo dos anos, a pequena, hoje com oito anos, sofreu diversas agressões, diretas ou veladas. Algumas, na sua opinião, foram para forçar a menina a trocar de escola. "Chegaram a me ludibriar, me mentir, de que se eu transferisse ela de escola ela seria avançada de ano." No início do ano, diz que o argumento para trocá-la de escola era que a menina tinha um atraso. Após isso, a mãe obteve laudo psicológico mostrando a capacidade da criança sendo acima da média, o que também se tornou motivo para propor a transferência.

Ela diz que notou o aspecto religioso da perseguição com a menina quando a criança de apenas oito anos começou a se sentir pressionada e falar sobre cristianismo. "Culminou com minha filha chegando em casa, se ajoelhando e dizendo 'mãe, eu tenho que rezar muito, eu tenho que rezar muito, tenho que tirar o mal que tá dentro de mim, o ódio dentro que tá dentro de mim'". Apesar de ser uma escola pública, ela diz ser comum ter palestras e cultos evangélicos no local, mas não de outras religiões. "Eu nunca fui tratada como uma líder religiosa dentro da escola", lamenta.

A gota d'água

No final de setembro, ela resolveu denunciar. Natália conta que foi convidada para participar do 5º Festquilombola e queriam que ela dançasse. "Até, a princípio, não levei para o lado ruim da coisa (...) aí falaram que eu não poderia falar de 'macumba', que os pais da escola não gostavam." Sendo uma mulher branca, ela disse ter estranhado, afinal, sua única ligação com o tema da festa é a religião de matriz africana. No seu site, a Prefeitura descreve o evento como parte do dia da Consciência Negra, "reunindo as comunidades quilombolas, escolas e demais membros da comunidade. O dia de festa destacou a cultura Afro com apresentações, exposição de produtos e a 1º Mostra da Beleza Negra. Além de debate sobre temas relacionados aos direitos e políticas da pessoa negra."

Após o convite, foi pedido que ela passasse de sala em sala explicando aos alunos que sua participação no evento "não ia ter nada a ver com macumba." Ela diz que, mesmo assim, viu a oportunidade de trabalhar o tema do racismo religioso no evento, mas pediram que ela adiasse o dia da passagem - para uma data posterior ao fim das inscrições do evento - pelas salas para evitar o contato com uma professora. "[disseram] 'ai, pode te ofender de alguma forma, te agredir verbalmente de alguma forma (...) porque ela não gosta da tua religião.'". À noite, uma pessoa da escola fez contato dizendo que tinha sido pressionada pelo grupo escolar a desconvidá-la. Neste momento, ela decidiu fazer o boletim de ocorrência.

Exposição

Ela relata que, quando foi à delegacia, uma funcionária da escola tentou lhe dissuadir da denúncia. Agora, em fevereiro, Natália diz que escolheu expor o caso após a falta de soluções práticas. Ela fez uma transmissão ao vivo no Facebook dando sua versão dos fatos. Após a live, o DP conversou com ela e teve acesso ao boletim de ocorrência. Neste mesmo dia, ela contou que havia recebido a informação de que a filha tinha conseguido uma vaga para transferir-se, a seu pedido, à rede estadual de ensino.

Argumentos da Prefeitura

A reportagem entrou em contato com a secretária de educação do Município, Fernanda Jardim Barbosa da Fonseca. Por mensagem, ela disse estar a par do assunto. A reportagem pediu para realizar uma entrevista sobre o tema, mas ela deixou de responder e atender às ligações. Por meio de nota, a assessoria de comunicação da prefeitura negou haver tratamento diferenciado por questões religiosas na rede pública. Confira, na íntegra, o que diz o texto:

"A condução da Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Cultura é sempre na construção de uma cultura de respeito e convívio harmônico entre todas as cores, crenças e religiões, especialmente porque Canguçu se caracteriza por uma grande diversidade étnica na sua formação. Conforme preconizado tanto na BNCC [Base Nacional Comum Curricular] quanto na RCG [Referencial Curricular Gaúcho], trabalhamos de uma forma ampla todas as religiões em nossas escolas, promovendo reflexões sobre os fundamentos, costumes e valores existentes na sociedade, com atividades que estimulem o diálogo e respeito entre todos."

"Em relação a problemas que acontecem em nossas escolas, tanto com relação a questões religiosas como demais assuntos, os mesmos são averiguados e esclarecidos de forma a buscarmos o entendimento entre os envolvidos. Quanto aos fatos apontados pela denunciante, enfatizamos que não há qualquer diferenciação de tratamento da aluna em relação às crenças religiosas da família."

O que dizem as autoridades?
O delegado responsável pelo caso, Geovane Klipel, informou que o caso é conduzido em sigilo e, por isso, não dará detalhes, não podendo inclusive confirmar a procedência ou não das denúncias. Algumas pessoas serão ouvidas no decorrer do inquérito. Já o Ministério Público, através do primeiro promotor de Justiça de Canguçu, Marcio Saalfeld Pinto Ferreira, disse que o registro foi feito pelo órgão e agora aguarda o retorno da investigação policial e que uma posição só será emitida após o retorno do inquérito.

(*) A pedido de Natália, para fins de preservação, a reportagem não mencionou os nomes da escola, da criança, nem os cargos dos envolvidos ligados à escola.

 

Nenhum comentário: