Há muitos posicionamentos e diferentes opiniões a respeito da Ditadura Militar no Brasil, que começou exatamente há 50 anos e permaneceu por duas décadas. Há registros de torturas e evidentes golpes contra a liberdade. Porém há também comentários saudosos como: “No tempo da ditadura é que era bom!”.
Deixando a política e os regimes políticos de lado e voltando ao tema espiritual quero fazer uma ligeira e perigosa comparação, pois religião e política não se misturam neste formato. Mas mesmo assim vou insistir em um paralelo comparativo.
Nos regimes religiosos há duas vertentes nas quais se enquadram toda e qualquer religiosidade do mundo antigo ou contemporâneo. Uma delas vive a partir da lei, a partir da regra – uma espécie de dita “dura”. Outro a partir do evangelho ou da boa nova do perdão e do amor de Deus – uma dita “leve”.
No regime da lei, na dita “dura”, o centro está no que o ser humano faz ou deixa de fazer. Se ele cumpre ou não cumpre a lei. Esse regime traz visibilidade e uma aparente coerência. Porém, ao ler a Bíblia, percebemos que Jesus acusa frequentemente os fariseus (grupo religioso) de que são pessoas que cumprem a lei apenas externamente (Mt 23) e por isso os chama de sepulcros caiados (Mt 23.27) – túmulos bonitos por fora, mas que por dentro possuem apenas um fedorento cadáver. Os fariseus eram populares pelos discursos bonitos e pela firmeza com que cumpriam as regras religiosas. Mas Jesus os condena! Jesus denuncia de que colocavam sobre os ombros das pessoas um fardo pesado, cheio de regras (Mt 23.4). O apóstolo Paulo igualmente chama atenção para o fato de que não adianta nada um mero cumprimento da lei. Na poesia do amor (1 Co 13) ele chega a dizer que ainda que uma pessoa doe todo o dinheiro aos pobres, ainda que entregue o seu corpo para ser queimado, se não tiver amor, isso de nada adiantará!
No regime da dita “leve” – Jesus diz: aprendei de mim, porque o meu jugo é leve (Mt 11.30). Ele ainda diz: Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei (Mt 11.28). O apóstolo Paulo descreve esta situação como uma liberdade que Cristo conquistou, nos tirando das garras de uma religiosidade externa. Por isso ele afirma assim: Para liberdade foi que Cristo vos libertou, permanecei, pois, firmes nesta liberdade (Gl 5.1). Segundo esse regime, Jesus revela seu grande amor, sua misericórdia, seu perdão, seu acolhimento. Este amor aquece nossos corações e nos faz amar os outros como ele nos amou. Motivados pelo seu perdão e não pela coação da lei. Por isso chamo de dita “doce”, “leve”. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro (1 Jo 4.19).
Na verdade, precisamos do ponto de vista espiritual, da dura lei, para revelar que somos fracos, para gerar arrependimento, mas, sobretudo, precisamos do perdão acolhedor, e do doce evangelho que é poder e ação de Deus. Somente ele transforma corações e ensina a viver e amar verdadeiramente!
Por isso, centremos nossa fé em Jesus, no seu amor, no seu perdão, no seu evangelho – e vivamos lutando e vivendo a justiça. Pois o verdadeiro amor não é acomodado, antes luta para cuidar, amparar e vencer toda injustiça – para vivermos em uma plena liberdade.
Ismar L. Pinz
ismarpinz@gmail.com
Comunidade Luterana Cristo Redentor
Pelotas, RS
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