Velho. Assim os meus filhos e a minha mulher me chamam. Acredite, é muito bom ser chamado desta forma. Ainda não fiz sessenta anos, ainda não me aposentei, mas sou um velho. Características estéticas e metabólicas me enquadram neste grupo. Mas o que mais faz eu me sentir um velho – um velho feliz – é a minha condição emocional. Penso como um velho. Logo, ajo como tal. O fato de ter os meus sete filhos criados, bem encaminhados, também contribui para isso.
Ah! Se soubesse como é bom, gostaria de ter envelhecido antes. Mas só se pode ser velho quando nos tornamos velhos, nem antes, nem depois, cada um dentro do seu próprio padrão. Este período é finito e tende a não ser muito longo.
Viver e morrer é um processo único, misterioso e belo, não só do nosso mundo físico, sólido, palpável, mas de um mundo que é completamente pessoal e individual, criado com base nas nossas escolhas e decisões, pensamentos e sentimentos, atitudes e crenças.
Viver é aproveitar o tempo nem tão devagar que pareça desperdício, nem tão rápido que pareça abuso. Logo, tenho que desfrutá-lo da melhor forma. Uma vantagem de ter quase sessenta anos é saber que o mundo é o que você faz dele e que será tanto melhor quanto mais capaz você for de fazer as devidas escolhas.
Ser jovem significa, embora sem ter claro o porquê e para onde, querer e tentar mudar o mundo, sem saber bem como fazê-lo. Indignado, impetuoso, mesmo tendo toda a vida pela frente, quer transformar tudo, agora.
Ser adulto é gastar tempo buscando a opção adequada. É a necessidade de acumular bens materiais, crescer e amadurecer como ser humano. É brigar, disputar espaços, dar voltas, competir, cometer equívocos, se enredar no próprio orgulho.
Agora, ser velho é avançar em tolerância. Desenvolver a capacidade de ouvir e trabalhar o contraditório. Aprender com as experiências vividas. Errar menos. Eliminar o que não está funcionando, substituir pelo que se deseja. Amar mais. Ter a capacidade de ser tudo no próprio filme: escritor, diretor e ator principal e, também, permitir que os outros atores tenham o seu protagonismo, desempenhem os seus papéis.
No tempo, com certeza, a enorme e sublime contradição da vida. O jovem, ansioso, não o valoriza. O velho, com a plena capacidade de contemplá-lo e saboreá-lo, mas com tão pouco para usar.
Do ponto de vista prático, convivo cada vez mais com a necessidade de fortalecer e ampliar as condições para ser um velho devidamente protegido por um aparato legal. O Estatuto do Idoso precisa ser respeitado em sua integridade. A questão da violência é preocupante, principalmente a violência doméstica, praticada por parentes e cuidadores.
O Estatuto representa um avanço considerável. Mas outros direitos precisam ser obtidos, como o fim do Fator Previdenciário e a recuperação das perdas salariais.
Compreendendo e assimilando o processo de envelhecimento, resta apenas um aspecto para que eu seja apaixonadamente velho: ser avô. Que venham os netos!
*Vice-Governador do RS
Publicado na Revista Em Evidência
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