A Zona Sul poderia iniciar o 2015 com dez deputados na Assembleia Legislativa e cinco na Câmara Federal. Não é especulação. É concreto. Dados divulgados neste mês pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) indicam: juntos, 28 municípios da região possuem 712.959 eleitores. O suficiente para garantir espaços bem maiores do que os registrados em outubro de 2010, quando cinco cadeiras foram conquistadas na Assembleia. Na Câmara dos Deputados, em Brasília, a Zona Sul não conseguiu eleger sequer um representante - em ambos os casos o DP não contabiliza os resultados de Bagé, na Campanha.
É o efeito da perda de votos. Levantamento realizado pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) - com base em dados do último pleito - revela um cenário que suscita, ao menos, reflexão. Se considerada a lista só dos 20 candidatos que obtiveram melhor desempenho nas urnas para Câmara Federal, nas 28 cidades, constata-se: 50,2% dos votos foram destinados a nomes de outras regiões do Estado. Um fenômeno ocorrido também para deputado estadual, ainda que em menor proporção: 31,4% dos votos foram para concorrentes de outras localidades do Rio Grande do Sul.
São informações que deixam um vasto por que a ser digerido pelas lideranças da Zona Sul e ampliam o compromisso dos partidos políticos na hora de definirem suas nominatas. "Temos visto uma falta de articulação política. Os partidos têm que pensar seus candidatos dentro de uma estrutura e de uma estratégia regional", destaca a diretora do IPO, a socióloga Elis Radmann. Sem diálogo afinado entre os diretórios, as agremiações, em geral, lançam muitos candidatos; contingente que contribui à pulverização de votos e pode acabar por não eleger alguém.
É o universo em que o Diário Popular o convida a entrar entre esta terça-feira (18) e quarta, quando também será apresentada nova pesquisa do IPO sobre a intenção do eleitor de Pelotas em votar em nomes da região.
Mobilização certa
As formas de divulgação ainda não estão decididas, mas o trabalho é certo. A Aliança Pelotas, composta por oito entidades, irá levantar - novamente - a bandeira de que, em 5 de outubro, o eleitor dê preferência aos nomes da Zona Sul. Encontros preliminares com dirigentes dos partidos já começaram a ser feitos, com objetivo bem definido: a composição de uma lista de candidatos com potencial real de votos.
“A escolha de nomes, efetivamente, comprometidos com a região já virou um mantra pra nós”, destaca o coordenador da Aliança, Vittório Ardizzone. “Não vai se abrir mão disso jamais, independentemente de partido. É um ponto inquestionável.” As dúvidas, daqui para frente, referem-se a como fazer a mensagem chegar à comunidade.
Um estudo sobre o perfil e as necessidades da região também está em fase de elaboração e, tão logo, estejam definidos os concorrentes ao governo do Estado, o documento deverá ser distribuído; nos mesmos moldes do que ocorreu em 2012, na eleição para prefeito.
Ser da região é apenas um dos valores a serem observados
O fato de o cidadão votar - ou não - em candidato de sua região e de os partidos apresentarem nomes específicos baseados na divisão territorial, passa por decisões políticas, o que costuma ser chamado de distritalização. Ou seja: um processo artificial desejado por muitos, com vistas a garantir representação por partes ou regiões de um distrito eleitoral. No caso, o Rio Grande do Sul.
É o que explica o professor do Instituto de Sociologia e Política (ISP) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Álvaro Barreto. O Brasil, entretanto, adota o sistema proporcional e a base da representação para a Câmara dos Deputados, por exemplo, é o estado - reitera. “Por isso, enfatizo: não existe deputado de Pelotas. Isso é uma invenção. Para muitos, uma invenção positiva, desejável e passível de ser realizada, mas ainda assim, uma invenção.”
Na hora de decidir o voto é preciso lembrar: há outros aspectos sociais relevantes, além dos territoriais, a serem ponderados. Existem os interesses por setores econômico-profissionais - em que um professor, por exemplo, pode sentir-se mais representado em votar em outro professor, seja da região que for -, ideológicos, religiosos e assim por diante. Por isso, culpar o eleitor em não ter votado em nomes da Zona Sul é demasiado - defende o doutor em História. “Ele pode escolher um candidato a partir de muitos valores e ser da região é apenas um deles.”
Participação política
O cidadão tem de refletir sobre a política e perceber que, ainda que a olhe com desconfiança, é impossível viver sem ela. E mais: as decisões do voto, sejam quais forem, produzem consequências na vida cotidiana - lembra Barreto.
Para minimizar os custos da tomada de decisão e reduzir o grau de dificuldade no momento de escolher quem irá representá-la pelos próximos quatro anos, não raro, a pessoa vai em busca de nomes mais conhecidos, com maior visibilidade, independentemente da relação que este candidato possua com as bases sociais, da capacidade de articulação ou do conhecimento de legislação - acrescenta Elis Radmann. "Com um sentimento, muitas vezes, de que santo de casa não faz milagre, o eleitor simplesmente opta por nomes de fora", afirma a socióloga.
A análise, todavia, deveria ser mais profunda. É preciso assumir os custos de buscar a melhor escolha. "É preciso analisar e comparar candidatos, ideias e propostas. Pode ser chato, desgastante, mas só assim se pode construir uma democracia representativa de qualidade", reforça o professor do ISP.
Entenda melhor
Para estabelecer a projeção de cinco deputados federais e dez estaduais eleitos, em outubro de 2014, o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) considerou a união de dois fatores: um número menor de candidaturas na região (ação dos partidos) e a votação em lideranças da Zona Sul (ação do eleitor). A estimativa também levou em consideração o número de votos brancos e nulos e as abstenções.
Os dez parlamentares representariam 18,1% das 55 vagas da Assembleia gaúcha. Na Câmara Federal, os cinco deputados seriam o equivalente a 16,1% das 31 cadeiras reservadas ao Rio Grande do Sul.
Como era em outubro de 2010?
Para deputado federal: nenhum candidato eleito na Zona Sul.
Para deputado estadual: foram eleitos Míriam Marroni (PT), Alexandre Lindenmeyer (PT), Adilson Troca (PSDB), Pedro Pereira (PSDB) e José Paladini (PSB).
Como ficou?
Para deputado federal: Fernando Marroni (PT), primeiro-suplente, assumiu no lugar de Maria do Rosário, convidada para ocupar a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Em 5 de abril ele perdeu a cadeira, para a companheira ter a chance de concorrer à reeleição.
Para deputado estadual: em janeiro de 2013, a Zona Sul perdeu o parlamentar petista Lindenmeyer - novo prefeito de Rio Grande -, mas ficou com o mesmo número de representantes. Nelson Härter, primeiro-suplente do PMDB, assumiu como titular no lugar de Marco Alba, eleito prefeito de Gravataí.

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