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20 junho 2013

Abertura Oficial da Semana de Canguçu - Mudar o mundo

Texto de Danizio (Xirú) Dorneles

'Mudar o mundo, amigo Sancho, não é loucura nem utopia, senão justiça'.

A frase dita pelo personagem fictício Dom Quixote, no livro escrito por Miguel de Cervantes há mais de 400 anos permanece atual. Ou mais atual do que nunca. Canguçu completa 156 anos num momento em que as vozes estão nas ruas e querem também – a exemplo de Dom Quixote – mudar o mundo.

Mas quem somos nós, neste distante e multifragmentado mapa de pequenas propriedades? Somos africanos, alemães, italianos, portugueses, espanhóis e indígenas.

Somos minifúndio! Um poema itinerante forjado por mãos, sementes, vidas e sonhos. No momento em que o país deixa a formalidade dos salões nobres e ganha as ruas, sentimos que também estamos em mudança, através de transformações culturais na forma de pensar, agir e sentir. Numa rua qualquer, de uma cidade qualquer de um imenso Brasil, o cartaz empunhado pelas mãos decididas de uma menina ainda adolescente anuncia:

– Desculpem o transtorno, nós estamos mudando este país.

E quem tem medo de mudança, quem tem medo do povo nas ruas, não sabe, não está acostumado ou não quer a democracia.

Afinal, foi através do povo nas ruas que conquistamos, na década de oitenta, o direito de ir às urnas e, por voto direto, eleger nossos representantes. Hoje, a condição que nos parece natural, de votarmos e sermos votados, era um sonho acumulado ao longo de duas décadas de violência e opressão, tempo em que a ditadura calou vozes e mutilou corpos.

Por isso é importante dizer, diante da sanha oportunista de setores conservadores da sociedade: o povo está nas ruas é pelo avanço da democracia, e não pedindo o impeachment da presidenta ou querendo um novo golpe como ocorreu em 1964.

O povo quer dar um passo à frente e não cair novamente naquele abismo.

E como esquecer o tempo em que fomos também vítimas de um Estado autoritário? Aliás, não queremos e não podemos esquecer. Queremos lembrar para que isso nunca mais aconteça. E neste sentido, precisamos mexer nas feridas, porque, afinal, elas ainda sangram. Num momento de comemoração, é preciso que se diga, pra que as novas gerações saibam: Canguçu já teve um prefeito democraticamente eleito que foi derrubado através de uma intervenção da Ditadura.

Quando se fala em intervenção, é preciso fazer uma distinção entre suas formas: algumas derrubam homens eleitos democraticamente pela vontade do povo, como ocorreu eu 1969, com Emir Squeff. Outras intervenções derrubam tiranos, que se perpetuam no poder pelo medo e contra a vontade popular.

Estamos avançando numa efervescência de novas ideias e novos projetos. É o momento de não apenas escrever nossa História, mas também reescrevê-la. Afinal, conforme nos adverte Eduardo Galeano “até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador”.

Precisamos contar os fatos não apenas sob a ótica de carrancudos coronéis, mas por meio do povo, das antigas lavadeiras, dos meninos engraxates, dos soldados que morreram em guerras que nem eram suas. Precisamos de uma História renovada, contada por gente do povo, por jovens que hoje nos surpreendem com a multiplicidade de ideias, novas formas de pensar, novos saberes que se fundem e constroem um conhecimento transformador.

Precisamos escrever nossa História na perspectiva dos quilombolas, dos negros que foram vergonhosamente traídos e assassinados em Porongos. Temos contas a acertar com o povo negro. Temos dividas com essas mulheres e esses homens, mil vezes mutilados pelos açoites do passado e cujas feridas permanecem abertas diante do preconceito ainda praticado por muitos.

Mas quem somos nós, neste distante e multifragmentado mapa de pequenas propriedades?

Somos minifúndio! Um poema itinerante forjado por mãos, sementes, vidas e sonhos. Somos mulheres e homens, dispostos a semear, sem ódio, numa terra sem venenos.

Somos a capital brasileira e, quem sabe, latino-americana, da Agricultura Familiar. E esta agricultura praticada em Canguçu, em pequenas propriedades, com diversificação de culturas, com sementes crioulas, é responsável por 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro.

É aniversário de Canguçu! Há muito a comemorar e há muito a avançar. Há filhos de nosso município que ainda sentem frio. É preciso quebrar o preconceito existente com nossos irmãos assentados da reforma agraria, gente sofrida, oriunda do êxodo rural que se intensificou nos anos 60 e 70, período de escassas políticas públicas voltadas aos mais pobres.

Há assentamentos que são modelos de desenvolvimento baseados na justiça social e na sustentabilidade. Mas os setores conservadores preferem voltar os olhos para uma minoria, que apresenta falhas, como se não houvesse falhas em suas próprias famílias e no sistema socioeconômico e político do país.

Mas quem somos nós, neste distante e multifragmentado mapa de pequenas propriedades?

Somos minifúndio! Um poema itinerante de carne, suor, terra, semente e sonhos. Nossa cultura é múltipla, como são múltiplas as etnias que formam nosso povo. Os gostos, sabores e saberes da colônia estão no nosso cotidiano. A língua pomerana, está nas nossas ruas como um imenso patrimônio imaterial que ainda precisa ser desvendado pelas gerações futuras

São 156 anos de história política de um povo que avança em busca de objetivos concretos, mas que também sonha. E como nos diz Cora Coralina:

"Não sabemos se a vida é curta ou longa para nós, mas sabemos que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas".

Viva o novo tempo, de transformações e pensamentos renovados!
Viva os 156 anos do município!
Viva o povo de Canguçu

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