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14 junho 2011

Algumas lições do mundo virtual para indivíduos e empresas

Por: Antônio Heberlê, pesquisador da Embrapa Clima Temperado e professor da UCPel, antonio.heberle@cpact.embrapa.br


Convido os leitores a fazerem uma breve pausa para que possamos refletir sobre algo que mudou a nossa forma de interagir com as coisas que nos cercam. Refiro-me ao chamado mundo virtual. Como usamos a palavra "mundo", parece que estamos falando de algo que nos transcende, como se, por ser de outra esfera, pudéssemos viver sem as suas implicações. Não é verdade. As tecnologias sempre mudaram a forma de interação do homem com o mundo desde a máquina a vapor. Até aí, nenhuma novidade.

A primeira lição é que o virtual é real e ninguém está livre das suas consequências, para o bem ou para o mal. Muita gente pensa que pode passar ao largo desta discussão. Até pode, mas não significa que estará livre dela. Isso ocorre porque os seus domínios se implantaram definitivamente na vida social. Todo o relacionamento institucional e pessoal é feito com base nesta mediação, que envolve pagamentos, bancos, telefones, TVs, trabalhos, filmes, músicas, contatos pessoais, lazer, enfim.

A segunda lição é que os sistemas novos são abertos, de amplo espectro, atingem a todos e podem aproximar contatos pelo mundo afora, mas também produzir grandes estragos. Podem fazer um casamento, mas também podem acabar com ele. Podem ajudar numa contratação, pois as empresas fazem um rastreamento (pela internet, nas redes de relacionamento) do perfil dos candidatos antes de contratá-los, o que leva menos de um minuto. O curriculum é, portanto, só um dado. Mas a rede também pode ser motivo de demissão, desde que o histórico do trabalhador mostre rastros que denunciem opiniões ou atitudes que por algum motivo desagradem o empregador.

Na terceira lição se aprende que é impossível esconder. Aliás, no sistema aberto, quanto mais escondida a informação, maior é o valor de troca no sistema-mídia. Soubesse administrar bem esse valor simbólico a princesa Diana poderia ter visto o casamento do filho no mês passado. No sistema-mídia esconder-se pode ser medido em cifras, pois alguém sempre ganha com o inédito (e coloca na rede). As pessoas e, principalmente, as empresas precisam saber disso porque as consequências são diretas sobre as suas imagens e os seus negócios. Os registros são provas de existência, do real.

A quarta lição é que o privado é público. A vida privada já é quase impossível, porque o sistema de registro deixou de ser uma prática especializada de fotógrafos e cinegrafistas. Há câmeras por todos os cantos e de todos os tipos, do poste ao celular, tanto que os telejornais usam tais registros para produzirem mais notícia. Todos nós, pessoas e empresas, somos atores e estamos no big brother. Mesmo que isso desagrade a muitos, como aos assaltantes, informo que todos podem estar sujeitos às suas consequências. Não se trata de gosto, mas da realidade e esse não é o novo mundo, é o nosso mundo, agregado de tecnologias em rede. A propósito, já experimentou colocar o seu nome no Google?

A lição cinco é que muitos falam para muitos, pois os meios estão disseminados e qualquer pessoa pode ser emissor, diferentemente do mundo dos meios de comunicação de massa tradicionais, no qual um fala para muitos. Ter um meio de comunicação já não é papel especializado, visto que a comunicação aberta está ao alcance como nunca. Isso também implica em responsabilidade, porque plataformas de relacionamento como MSN, Facebook, Orkut, Twitter e blogs são "canhões" de comunicação com o mundo. Pode-se utilizar os recursos para emitir, formar opinião, fortalecer imagem individual ou empresarial. Mas a rede pode também ser usada como ferramenta de inescrupulosos, para (a)tingir a imagem. Saber das lógicas é coisa dos novos especialistas e eles podem estar de qualquer lado.

Enfim, penso que indivíduos e empresas precisam de orientação para uso das técnicas, como em todas as épocas. Os vapores evoluíram para os motores a combustão e agora não se pensa o mundo sem indústrias, carros e aviões. Há legislação para uso de tudo isso. Nesta realidade nova das mídias todo o sistema é desafiado e as instituições estão desorientadas, mas terão que discutir o assunto com a profundidade que ele merece. É por isso que algumas produzem regras draconianas para seus empregados, proíbem o uso da rede e impõem o terrorismo da opinião. Outras, deixam livre e solicitam o bom senso, cobrando responsabilidade. E nós? Bem, precisamos pensar mais quando, sozinhos, estamos na frente de uma tela e com os dedos livres para tocar as teclas. É bom lembrar que não estamos sós. Afinal, a liberdade é altamente vigiada e esta é a última lição do dia.

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