Domingo passado, Rafael Souza Barbosa, foi submetido a um transplante renal com órgão de doador falecido, a primeira intervenção dessa natureza HUSFP
Ele esperou nove meses para, de certa forma, nascer de novo. Domingo passado, o músico Rafael Souza Barbosa, 30 anos, natural de Canguçu e radicado em Pelotas, foi submetido a um transplante renal com órgão de doador falecido, a primeira intervenção dessa natureza no Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP). A opção foi do paciente, que preferiu aguardar o tempo necessário a receber de alguém que se sacrificaria para lhe ajudar. Rafael passa bem, nem de longe aparenta ter sido submetido a uma operação tão delicada e deve receber alta em seguida.
Otimista, confiante, positivo e disciplinado, nos últimos dois anos, quando foi diagnosticado o problema renal, nunca descuidou das recomendações médicas. Sentia-se pesado, ofegante, desanimado e tinha ânsia de vômitos. Procurou ajuda médica e descobriu que precisava do transplante. Nesses meses de espera se submeteu a sessões de hemodiálise que no início provocaram reações diversas, sintomas ruins, fortes, que o levaram a uma crise. Até convulsões teve. “Foi bem sério”, conta a mãe Clenira de Souza Mikoski.
A família tentou dissuadi-lo da espera pelo rim de um paciente morto, mas ele foi irredutível. “Não queria que fosse uma cruz para ninguém. Preferi entrar na lista. Coloco nisso a palavra de Deus. Foi um chamado”, fala. O período preparatório à cirurgia também foi tranquilo, como em todos os momentos que conviveu com a doença. Quando chegou a hora Rafael estava mais calmo do que a equipe médica e transmitiu segurança a todos, segundo ele próprio. “Ele sempre foi muito forte”, elogiou a mãe. Na véspera da operação recebeu um telefonema avisando para que ficasse em jejum. Tinha chegado a hora.
A cirurgia foi realizada com sucesso e tão logo passou o efeito da anestesia, ele já estava bem. A recuperação foi rápida, surpreendente. Logo que se sentiu bem, Rafael já deixou de usar a máscara protetora para evitar o contato com bactérias. O conselho que dá às pessoas com o mesmo problema é que tenham fé em Deus e confiança na equipe médica. “Aqui (HUSFP) encontrei humanização, dedicação, preocupação, capricho e atenção”, disse.
A quarta cirurgia no HUSFP
Daniel Duarte é um dos quatro médicos integrantes da equipe que operou Rafael. Antes do dele, apenas outros três transplantes de rins foram feitos no HUSFP, mas todos com doadores vivos. Operações como as primeiras implicam mais responsabilidade, pois requerem a retirada do rim de uma pessoa totalmente saudável. São muito delicadas, explica o urologista.
A cirurgia do músico foi feita após uma série de testes de compatibilidade. O órgão do doador morto é aproveitado quando falece por acidente de trânsito ou quando é vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). A intervenção no receptor é mais rápida, mas requer uma equipe de sobreaviso. “Nossos quatro casos até agora foram 100% de sucesso. Nenhum precisou mais fazer hemodiálise”, salienta Duarte.
Cronologia
2012 - Em 26 de março foi realizado o primeiro transplante renal intervivos em Pelotas. Uma adolescente, então, com 16 anos de idade, recebeu o órgão da mãe, de 45 anos.
2013 - Foi feito o segundo, quando mais uma vez uma mãe doou um rim à filha; e o terceiro, quando o pai doou ao filho de 28 anos.
2014 - O de Rafael é o quarto transplante feito no HUSFP, o primeiro do ano e com doador falecido.
Números nacionais
Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) indicam que em 2013 foram realizados cinco mil transplantes de rins, quando a necessidade era de 13,2 mil. O transplante renal cresceu apenas 0,4% (5.433), não atingindo a meta de 5,7 mil, tendo havido um aumento de 3,8% no número de transplantes com doador falecido e uma queda de 8,4% no transplante com doador vivo. A taxa de 7,2 transplantes renais com doador vivo é a mais baixa dos últimos 15 anos, e distancia-nos muito da meta prevista para 2017, de 15 transplantes com doador vivo.
O Rio Grande do Sul realizou 50,9% transplantes com doador vivo. Os resultados dos transplantes renais podem ser considerados como bons, com sobrevida em quatro anos do paciente (95% e 88%) e do enxerto (90% e 78%), respectivamente para doador vivo e falecido. O Brasil é o segundo país do mundo em número de transplantes.

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