NOVANET

Vida Plena

Gordices da KÁ

01 junho 2010

Um tesouro que ninguém pode roubar

Francisco Carlos dos Santos Filho
Psicanalista
franciscocsantosf@hotmail.com

Semana passada meu pai recebeu uma homenagem póstuma em minha cidade natal. Ele foi médico, um dos três ou quatro primeiros médicos a residir na cidade, e por lá trabalhou durante trinta e cinco anos até que uma enfermidade inabilitante e depois a morte o retiraram prematuramente de cena. Inagurou-se o Centro Obstétrico Dr. Francisco Carlos dos Santos do Hospital de Caridade de Canguçu. Infelizmente não pude estar presente, mas recebi – grato à meus conterrâneos pela homenagem e a meu pai pelo seu valor – este presente simbólico que é, afinal, o fruto de uma vida dedicada ao trabalho.
No consultório, os psicanalistas escutamos todos os dias os mal-entendidos que se sucedem por toda vida, apoiados nos conflitos que os filhos arrastam com seus pais, apontando especialmente para os limites destes como seres humanos, e demostrando como é difícil abandonar, quando o assunto é o vínculo entre pais e filhos, um posicionamento infantil e exigente. É claro que podem existir pais que são maus, más pessoas que se ocupam doss filhos e exercem de forma desastrada esta função. Da mesma forma existem filhos que não sabem honar aquilo que receberam, e mesmo tendo ganho muito, encontram um modo de levar ao desperdício todo o patrimônio simbólico que receberam.
Patrimônio simbólico é algo que está muito além dos bens concretos que os pais podem nos deixar: são bens que não se palpa, que não se escritura e nem se vende, e que, principalmente, ninguém pode nos tirar depois que descobrimos como adquiri-los internamente para bem usá-los. Esse tesouro que vale tanto é por vezes soterrado pelos mal-entendidos, ressentimentos e mágoas resultantes de limites que todos exibem, mas que nossa soberba de filhos não nos permite tolerar em nossos pais.
Eu recebi, inesperada e tardiamente, mais uma valiosa peça do tesouro identificatório que meu pai espalhou pela vida. Quantas recebi antes quando ainda não sabia o que ganhava? É preciso saber identificar quando os pais ofertam este tesouro para depois saber receber e, por fim, honrar e poder usar. Eu quero deixar pequenos e valiosos brilhantes como este que ganhei pelos caminhos dos meus filhos. Por isso tenho trabalhado internamente minha vida inteira para entender o que fez meu pai, como fez, e tudo que me deu. Cada vez que vejo que um dos meus filhos adquiriu dentro de si um pouco do que quis lhe dar, que enxergo ali, naquele gesto, a mim e a meu pai, sinto que o tesouro de nossas identificações vale a pena.

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