NOVANET

Vida Plena

Gordices da KÁ

26 janeiro 2007

Chiquinho - Post MrPinz, Texto de Emanuel Neves

Texto extraído da comunidade do Inter no Orkut:
De todos os fatores positivos deste primeiro tempo, há um que se sobressai. É Chiquinho. A revelação Chiquinho. A grata surpresa Chiquinho. E é por isso que a torcida está dessa forma, encantada. Porque o Internacional vence. E há Chiquinho”. O ano era 2002, e eu estava bêbado. Em meio a um quase lisérgico churrasco de faculdade, liguei o rádio do carro. De blusa vermelha, o Professor versava sobre um primeiro tempo magistral. O Inter de Celso Roth vencia um Santos pré-adolescente, que se tornaria campeão brasileiro alguns meses depois. Na ala-esquerda, um menino fazia a maior partida de um camisa 6 desde 1957, quando Oreco deixou a sombra dos Eucaliptos e foi brilhar no Corinthians, sob a benção de São Jorge. Quando Chiquinho entrou em campo naquele sábado, uma estrela nasceu em algum lugar do espaço. E dores cessaram. E pecados foram remidos. Porque ali aparecia um craque. E o surgimento de um fora-de-série é tão milagroso quanto o próprio amanhecer infinito. O sol cumprimentou o Gigante por seu novo prodígio.Chiquinho jogava com as chuteiras da esperança. A fé estava encravada em seus pés, tal qual as travas que acariciavam o gramado do templo colorado. Sua confiança se misturava com a de toda uma nação. – “Chiquinho! Chiquinho!”. Gritavam e se abraçavam. Havia lágrimas. Nelas, se refletia a felicidade. E ela cruzava de esquerda, com perfeição. O ano era 2002. Eu estava bêbado. E Chiquinho tinha alma.E foi essa alma que o fez superar mazelas que nem o Criador sabe de onde vieram. Ela e a prece de um torcida sem igual. Os corações colorados mantiveram uma novena constante. Os Deuses do Futebol ouviram as orações. O ano era 2003. Eu não lembro se estava sóbrio. Mas vi o Beira-Rio explodir quando Muricy Ramalho mandou o camisa 16 aquecer, no decisivo jogo contra o São Paulo. Não ganhamos. Chiquinho pouco fez com a bola. Mas a cada pique, a cada toque, as nuvens paravam para olhar. A Lua as afastava para admirar. E o futuro se abria como uma flor de luz.
O guri de Canguçu era esperança outra vez. Porque Chiquinho tinha alma. O Tempo seguia seu trabalho e só o interrompia para assistir as curvas que travavam o Minuano. Era Chiquinho centrando e fazendo o Inter renascer na cabeça de Fernandão. O lateral parava no bico da área, e os céus se abriam. O ala cruzava, e a bola desenhava um rastro de estrelas. A tabela cósmica elevava a massa à estratosfera. Aquilo era telepatia. Telecinese. Era mediunidade! O ano, 2004. E às vezes eu estava são. Lúcido o bastante para perceber que Chiquinho era a personificação da polêmica com a seis às costas. – “Não marca”. Diziam. – “É craque”. Rebatiam. – “Prejudica o time”! Retorquiam. – “Ele e mais 10”! Babavam. Numa mesa redonda, o tema Chiquinho dividia opiniões e acirrava ânimos tal qual uma plenária sobre pena de morte. O ala repetia o feito de Bráulio. Mas Chiquinho era um Bráulio com drama pessoal. Um Bráulio de folhetim. Um Bráulio de Manoel Carlos. E acabou sucumbindo novamente. A saúde de cambaxirra, como diria mestre Nelson Rodrigues, lhe tirou dos holofotes e dos olhos da torcida. Era 2005. E eu bebia muito. Porque o Inter de Muricy Ramalho ganhou mas não levou. A nação colorada não pôde chorar. Nem sorrir. O ano foi como um grito no vácuo. E para o nada parece ter ido também a alma de Chiquinho.O xodó voltou em 2006. Num mítico jogo contra o Zequinha, quando a aura de Monteiro Lobato pairou sobre Renteria, Chiquinho fez poesia no meio-campo. Sua apresentação foi um soneto. Seus decassílabos, ouvidos por toda a Zona Norte. Mas esse seria um ano bélico para o Internacional. E não se guerreia com versos. A peleia verdadeira é travada com a alma. E Chiquinho não a tinha mais. Inconformado por ser um mero coadjuvante, o Bráulio de Folhetim rumou para o Palmeiras. Lá, não conseguiu fazer mais do que algumas pontas na bufa trupe palestrina. Para piorar, renegou suas origens. Fingiu esquecer o canto de seu nome elevado ao Nirvana quando ele acariciava o ar num passe e fazia os problemas não importarem mais.
Quando corria calçado na esperança. Quando ainda tinha alma.O zumbi da ala-esquerda voltou ao Beira-Rio numa fria noite de domingo. Era agosto. E eu nunca tinha bebido tanto. A torcida colorada andava sem tocar o chão, dona e senhora de tudo o que via na América. No gol de empate alvi-verde, vaiado, Chiquinho apontou para o povo que um dia o acolheu como um filho, desferindo sua mágoa de morto-vivo. Hoje, começo de 2007, eu ainda me recupero de uma ressaca do tamanho do mundo. Na noite passada, vi Francisco vestindo a seis da Academia do Povo novamente. Quando o jogo acabou, uma estrela se apagou em algum lugar do universo.
Emanuel Neves

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