NOVANET

Vida Plena

Gordices da KÁ

18 março 2012

Doce Ilusão

por Volnei Ceron dos Santos*

Na floresta do Tudo-Pode as coisas em um certo tempo estiveram bastante turbulentas. Perseguições às pencas, mortes sem explicação alguma, sequestros que iam desde o pequeno até ao maior magnata, torturas tantas que formariam um invejável menu de como bem tratar a presa... enfim casos e casos que fizeram a bicharada andar de orelha em pé, pelo eriçado, num constante sinal de alerta. Tigres, leões, crocodilos... era tempo de feras. Aos menos fortes, andar de cabeça baixa, rabo entre as pernas era a solução de quem prezava o próprio pescoço. De forma que tudo passou e assim sobraram vidas para que a floresta continuasse a existir e não virasse uma tapera, como diria o bom gaúcho.

Pois bem. Os nervos da bicharada, mesmo os das mais temerosas feras, aplacaram-se, aos poucos, embora continuasse bem evidente o quem manda e o quem obedece. Naturalmente, naturalmente. Era uma floresta, assim era a vida e continuava assim. E assim como o tatu saia à noite a caçar e os pássaros à luz do dia revoavam em bandos, ainda naquela floresta do Tudo-Pode inquietações perturbavam o sossego e a perspectiva de futuro daquela massa. Motosserras roncavam dia e noite, árvores tombavam, jacarés eram mortos, peixes pegos aos montes... a fome também assustava o imaginário e aniquilava o estômago da maioria dos habitantes da floresta. Nem os maiores, poderosos como sempre, estavam fora do problema, se bem que a fartura sempre rolou em suas mesas. O leão podia ser o rei, mas um bando de capivara podia de certa forma dispor de um poder parecido com o do leonino que, vendo isso, agora, bem pensava antes de dar o bote. Cada dia mais precisa ser cobra bem criada.

O clamor por mudanças era grande. Os bichos que nada ou pouco tinham aos poucos tomavam coragem e se mobilizavam, na tentativa de dias melhores. Os bichos que tudo ou que quase tudo tinham organizavam-se de forma a manter a hegemonia.

Eis então que a grande massa não podia falar toda ao mesmo tempo. A solução da bicharada foi justamente escolher lideranças dos seus para levar avante seus projetos naquela floresta. Nomes surgiram: a coruja, a águia, o sapo, o lobo e, imaginem, até o burro foram ícones dos novos tempos de reivindicação. Mas teve também um tal de guaxinim que marcou história como nenhum outro animal naquela fauna.

Andava nos banhados, subia as montanhas, embrenhava-se nos matagais... por todo lado levava esperanças. Expôs ideias que simbolizavam os anseios dos seus simpatizantes. Não demorou para que se tornasse logo uma celebridade e uma das maiores personalidades entre o reino dos animais. Até mesmo o leão o admirava, tamanha reputação conquistada. Não demorou a receber promoções e ocupar cargos importantes. O guaxinim era mesmo muito hábil. Talvez tivesse gênio de raposa!

Assim o Guaxinim foi eleito com vitória avassaladora sobre os outros candidatos que não tiveram outra opção a não ser reconhecer a derrota e curvar-se diante do novo líder. Foi dia em que os bichos levantaram bandeiras, correram incansavelmente, voaram incansavelmente, nadaram incansavelmente, banquetearam incansavelmente... era um deles finalmente! O sol nasceria em cores mais brilhantes, finalmente... finalmente.

Mas o Guaxinim não era bobo, nunca fora bobo. Tinha pele de lobo. Sentiu-se confortavelmente naquele trono vermelho. Orgulhou-se dos talheres de ouro e prata. Adorou o poder de uma caneta. Era dar um canetaço e só. Era a lei, a sua lei. E todos se curvavam, adorando-o ou se submetendo ao poder. E assim a tristeza e a decepção se espalharam por todos os rincões da floresta do Tudo-Pode. O único que sabia que tudo acabaria assim era o leão, mas, agora, não passava de um simples gatinho, gordo e pesado. Era dar graças a Deus que ainda tivera a sorte de ter o que comer e não ser mandado para a forca.
Na verdade, os bichos aprenderam que oposição existe enquanto esta não se tornar o poder.
Na floresta do Tudo-Pode, qualquer coincidência não é mero acaso, caros amigos!

* Volnei Ceron dos Santos é professor da Rede Estadual de Ensino do Rio Grande do Sul e do Município de Canguçu. Possui formação em Letras, é pós-graduado em Políticas Educacionais e atua como escritor.

Um comentário:

Nenel Vieira disse...

...

Parabéns!

Na Verdade, se desejarmos conhecer a fundo 'o ser humano'... É só dar Poder à Ele!