Confira texto de Vinícius Espinosa provocando uma reflexão sobre o tema do Trânsito em Canguçu:
Remédio Amargo
Costumamos procurar um médico quando estamos doentes. Tomamos remédios amargos porque queremos a cura. Mas, depois de curados, quantos de nós voltamos ao consultório apenas para agradecer?
Talvez o maior problema da administração pública seja justamente esse: o remédio amargo raramente gera reconhecimento. Ele cura, previne, organiza, resolve. Mas dificilmente gera aplausos.
Por isso gostaria de iniciar este devaneio agradecendo às sucessivas administrações públicas de Canguçu. Sucessivas porque o benefício ao qual me refiro não pertence a um único governo. Ele foi construído, aos poucos, por diferentes gestões que tive a oportunidade de acompanhar desde que moro aqui.
Hoje já não precisamos nos deslocar para cidades como Pelotas ou mesmo para a capital para experimentar alguns dos desafios típicos dos grandes centros urbanos. Nós, moradores de uma cidade pequena, temos o privilégio de conviver com um trânsito cada vez mais caótico.
E foi justamente hoje, em pleno horário comercial e início de mês, na principal rua da cidade, que a genialidade se materializou diante dos meus olhos: a demarcação de vagas de estacionamento.
Curiosamente, a realização do serviço contribuiu para tornar o trânsito ainda mais complicado naquela tarde. Mas talvez isso seja parte da ironia. O desconforto momentâneo causado pela medida serviu para evidenciar, de forma quase didática, o tamanho do problema que ela tenta enfrentar.
Faço questão de repetir: isso não é prerrogativa desta administração. É também resultado das anteriores.
Porque o remédio amargo — estacionamento rotativo, restrições de circulação, planejamento urbano e organização do espaço público — não costuma gerar votos. Eu entendo.
Afinal, o remédio amargo é o que cura.
Mas quem é que procura um médico depois de estar curado?

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