Um reportagem especial sobre a chegada da luz nas residências dos moradores do campo, produzida brilhantemente pelo repórter Mauro Graeff, destacou as ligações rurais feitas em Canguçu. A matéria está no jornal Zero Hora (ZH) de Domingo, dia 01 de Março.
A página 23 do caderno "Geral" fala da família Braga, do Paraíso - 3º distrito de Canguçu, uma das 448 famílias que ainda aguardam a luz no interior de nossa cidade. A reportagem ainda destaca que Canguçu passou por uma "revolução luminosa" nos últimos 5 anos sendo o município com maior número de ligações elétricas. Leia a seguir a matéria (trecho sobre Canguçu) que traz o Jornal ZH.
"Autor: Mauro Graeff
No colégio, Soleni topa falar sobre os toques
do celular, das músicas da rádio ou até
do conteúdo de matemática. Mas quando
a conversa envereda para os programas de
TV, ela murcha num canto da sala e não
abre a boca. Soleni Gularte Braga, 16 anos,
mora com os pais e um irmão na localidade
de Paraíso, interior de Canguçu. É a única da
turma de nove alunos da sua escola sem luz
em casa. Com a insegurança típica
da adolescência, morre de
vergonha da exclusão.
– Eles falam das notícias,
das novelas, de um tal de Big
Brother. Eu nunca sei de nada.
É como se eu vivesse num
mundo à parte. Esses tempos
caiu um avião em São Paulo
com um monte de gente e eu
não sabia o que estava acontecendo
(o acidente com o avião da TAM, em
julho de 2007) – conta a garota.
Se o rádio tem pilha, a família Braga escuta
o noticioso matinal da cidade. Mas na
maior parte do mês vive desligada de tudo.
As notícias – nem sempre certas – chegam
mesmo quando um vizinho estaciona uma
carroça para prosar. O meio de comunicação
de Soleni com a civilização é o celular.
Quando termina a bateria, caminha um
quilômetro atrás da tomada mais próxima.
Oscar Soares Braga, pai de Soleni, não
sabe mexer em celular. Nem quer aprender.
Nos seus 52 anos na roça, queria ter energia
elétrica por dois motivos. O primeiro: adquirir
um objeto de desejo, um triturador
elétrico para fazer silagem para os animais.
O segundo: é aposentar o candeeiro feito
com um cano de metal e uma tocha de pano
mergulhados num vidro de café, fonte de
luminosidade à noite. A fumaça da querosene
é sufocante.
– Não aguento mais o cheiro. A gente
dorme logo depois que escurece pra não ficar
nessa fumaceira – diz o agricultor.
Na casa de chão batido, conforto é uma
palavra desconhecida. Geladeira a gás não
adianta comprar porque o caminhão vendendo
botijões passa longe. A comida do
almoço vai toda para os porcos se não consumida
ao meio-dia. O banho é de bacia.
E vento parecido com o de ventilador só
quando as cortinas do casebre balançam
com a ventania.
– A vida aqui é pesada. Sem luz, tem que
ser muito cabeça-dura igual a eu para ficar
no campo – lembra Oscar.
A família Braga decidiu esperar mais um
pouco pela energia. Não sabem até quando.
Encontrar um litro de querosene para o
candeeiro é uma dificuldade. Quando carneiam
um porco, precisam
peregrinar atrás um vizinho
com espaço na geladeira para
guardar a carne. Não bastasse
isso, o tempo não tem
ajudado na lavoura. A seca de
dezembro estragou o feijão. A
enxurrada de janeiro arrancou
os pés de milho.
– E com todos os problemas,
a gente entra em casa e
não tem um "entertimento" – diz Oscar.
A casa na localidade de Paraíso está entre
as 8 mil moradias rurais do Estado sem
energia – 448 delas em Canguçu. O município
passou por uma revolução luminosa
nos últimos cinco anos, com a ligação de 3,7
mil domicílios, quase 35% da população.
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